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A síndrome de Caim e o abandono do outro: quando a indiferença se torna regra

Caso no Pico do Paraná reacende debate moral sobre empatia, responsabilidade e o “sou eu o guarda do meu irmão?” em tempos de individualismo

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Uma das frases mais duras já registradas na história humana saiu da boca de Caim quando Deus lhe perguntou sobre Abel: “Acaso sou eu o guarda de meu irmão?”. Não era apenas uma resposta cínica; era a declaração de um mundo novo, um mundo onde o outro deixa de importar. Ao não pedir perdão, ao não chorar o sangue derramado, Caim inaugura algo mais profundo do que um crime: ele funda uma mentalidade. A primeira cidade nasce desse espírito, e até hoje seguimos habitando essa pólis erguida sobre a indiferença.

Vivemos numa era em que a preocupação com o próximo é tratada como ingenuidade, fraqueza ou, pior, como oportunismo moral. O mundo político — mas não só ele — ensinou-nos a rir da empatia. O que importa é o eu: meu projeto, meu grupo, minha causa, minha felicidade. O outro torna-se descartável, uma peça que pode ser empurrada para fora do caminho quando atrapalha. Essa lógica não é moderna; ela é antiga, profundamente antiga. É a lógica da queda, o eco persistente do pecado original.

Foi impossível não lembrar de Caim ao ler a notícia do rapaz abandonado no Pico do Paraná, deixado para trás por quem dividia com ele a trilha. Sozinho, ferido e vulnerável, ele enfrentou dias de terror, frio e fome, sustentado apenas pela esperança de não morrer esquecido. Não se trata apenas de um erro de julgamento ou de uma decisão precipitada; trata-se de algo mais frio: a indiferença que paralisa o coração e anestesia a consciência. É o oposto radical da parábola do Bom Samaritano.

Na história contada por Jesus, o escândalo não está apenas na ajuda, mas em quem ajuda. O próximo não é o semelhante, nem o aliado, nem o que pensa como nós. O próximo é aquele que cai no caminho e precisa de socorro. O próximo é quem sofre, independentemente de rótulos, ideologias ou conveniências. O próximo é o homem passando mal na descida da montanha; é o venezuelano esmagado por uma ditadura que o mundo finge não ver; é o inocente que apodrece numa prisão; é o jovem destruído publicamente por palavras que nunca escreveu.

O próximo é, inclusive, o inimigo. A lição de Jesus não deixa espaço para atalhos morais. Não nos é permitido escolher quem merece ser socorrido. Nem mesmo aquele que nos desagrada, que nos afronta ou que representa o que combatemos pode ser deixado sangrando à beira da estrada. A história recente do Brasil, marcada por crimes políticos, traições e mortes obscuras — como a de Celso Daniel, assassinado há 24 anos — continua a nos perguntar se aprendemos algo ou se seguimos repetindo a pergunta de Caim.

Dizer “eu sou o guarda do meu irmão” não é um slogan bonito; é uma confissão pesada. Significa assumir responsabilidade, mesmo quando isso custa conforto, reputação ou segurança. Significa recusar a lógica do abandono, tão naturalizada em nosso tempo. Significa admitir que, muitas vezes, também passamos de largo, também aceleramos o passo, também fingimos não ver.

No fim, a pergunta de Deus continua ecoando — nas cidades barulhentas e nos picos silenciosos, nos palácios e nas vielas: “Onde está o teu irmão?”. Não é uma pergunta dirigida apenas a Caim, mas a cada um de nós.

Que o Senhor tenha misericórdia de mim, não apenas pelos males que pratiquei, mas por aqueles que deixei acontecer. Que Ele me perdoe pelos irmãos que abandonei no caminho. E que, antes de qualquer discurso, eu aprenda a parar, a descer do cavalo e a cuidar do ferido. Porque, gostemos ou não, somos — sim — guardas uns dos outros.

 

 

 


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