Em 2015, o Brasil foi embalado por uma promessa forte: “Brasil, Pátria Educadora”. No segundo mandato de Dilma Rousseff, o discurso oficial transbordava entusiasmo. A propaganda institucional vendia um futuro desenhado pela pesquisa e pela inovação, onde o Estado seria o braço direito do cientista. Nos vídeos de campanha, o que se via eram sorrisos, laboratórios modernos e a celebração da genialidade da Dra. Tatiana Sampaio — uma cientista cujo trabalho carrega algo muito mais profundo que um título acadêmico: carrega a esperança da dignidade humana.
Mas, longe das luzes do marketing, a realidade era árida.
O relato da própria pesquisadora é um choque de realidade: ela não conseguiu registrar a patente internacional de sua descoberta porque a verba da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) simplesmente secou. Enquanto o governo construía uma narrativa de “pátria do conhecimento”, o orçamento minguava silenciosamente nos bastidores. E a verdade é dolorosa: ciência sem investimento não é progresso, é apenas um roteiro de publicidade bem escrito.
Esta reflexão não é um ataque partidário isolado, mas um questionamento sobre coerência. É difícil aceitar que um governo posicionado como defensor da inclusão permita que uma pesquisa capaz de devolver movimentos a pessoas paraplégicas fique à deriva por falta de recursos básicos. Não estamos discutindo “luxo acadêmico” ou teorias distantes; estamos falando de tecnologia assistiva, de reabilitação e de vidas reais que aguardam por autonomia. É, acima de tudo, uma questão civilizatória.
O ponto central aqui é o abismo que separa a narrativa da prioridade real. Recursos públicos são finitos e cada escolha orçamentária é, na verdade, uma declaração de valores. Quando projetos científicos estratégicos são sufocados enquanto milhões são destinados a campanhas de marketing ou ações simbólicas de curto prazo, a mensagem é nítida: a imagem do governo importa mais do que o impacto estrutural no país.
A ciência brasileira não padece por falta de talento. Pelo contrário, nossos pesquisadores são respeitados no mundo inteiro, mesmo operando em cenários de infraestrutura precária e burocracia sufocante. O que falta é a continuidade. A dependência quase absoluta do Estado, somada à instabilidade política, transforma o cientista em um refém de ciclos eleitorais.
A Dra. Tatiana Sampaio é o rosto dessa resistência silenciosa. Seu trabalho não é um panfleto; é laboratório, suor e persistência. Sua trajetória é a prova de que o Brasil tem potencial para liderar a biotecnologia mundial, mas também é o lembrete de como o país muitas vezes abandona seus maiores talentos à própria sorte.
Criticar esse modelo não é atacar indivíduos, mas exigir que a ciência seja tratada como política de Estado, e não como peça de propaganda. Governos têm prazo de validade, mas as descobertas científicas são permanentes. Patentes geram desenvolvimento, empregos e independência tecnológica. Já os cortes desorganizados geram apenas fuga de cérebros e o enterro de oportunidades históricas.
Se o Brasil deseja ser, de fato, uma pátria educadora — e não apenas uma pátria publicitária — precisará aprender a alinhar o que diz com o que faz. Precisará proteger seus pesquisadores antes de proteger sua narrativa política.
Afinal, no fim do dia, slogans não devolvem movimentos. A ciência, sim.














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