Há algo de profundamente sedutor — e perigoso — quando celebridades usam palcos internacionais para falar em nome de países inteiros. No brilho do Globo de Ouro, onde palavras custam menos que estatuetas, o ator Wagner Moura voltou a apresentar ao mundo uma versão do Brasil moldada sob medida para o gosto progressista estrangeiro: um país dividido entre “resistentes da democracia” e um “fascismo” sempre localizado do lado de fora de seu próprio campo político. O problema não está apenas no que se diz, mas sobretudo no que se escolhe calar.
Essa narrativa funciona porque simplifica. Ela transforma a história brasileira em um roteiro maniqueísta, fácil de aplaudir. Ditadura Militar e bolsonarismo aparecem como os únicos marcos do autoritarismo nacional, enquanto todo o restante — especialmente os vícios estruturais da Nova República — é convenientemente apagado. Trata-se de uma verdadeira amnésia seletiva, travestida de virtude.
Onde esteve essa indignação ética quando o Mensalão e o Petrolão revelaram o maior esquema de corrupção da história do país? Onde estava a defesa enfática dos pobres quando bilhões foram drenados de hospitais, escolas e políticas públicas para sustentar projetos de poder? E por que o termo “fascismo” nunca é aplicado a regimes que recebem simpatia explícita de parte dessa elite artística, como os de Nicolás Maduro e Daniel Ortega, que transformaram seus países em cemitérios de liberdades individuais?
Existe um nome popular para isso: ativismo seletivo. Ou, como já se consagrou no debate público, o “revolucionário de aeroporto”. Criticar o capitalismo, o Estado brasileiro e a “ameaça fascista” torna-se fácil — e até lucrativo — quando se vive confortavelmente na Califórnia, cercado por contratos milionários e aplausos automáticos. Enquanto discursos inflamados são proferidos em inglês impecável, o Brasil real lida com problemas bem menos cinematográficos: inflação que corrói o prato de comida, aparelhamento do Estado, censura velada e o silenciamento de vozes dissonantes em nome de uma suposta “defesa da democracia”.
O contraste se torna ainda mais cruel quando olhamos para escândalos recentes, convenientemente ausentes dessas falas moralizadas. As investigações sobre fraudes no INSS, envolvendo o Banco Master, revelaram um esquema bilionário de empréstimos consignados fraudulentos que atingiu diretamente aposentados e pensionistas — gente que depende desse dinheiro para sobreviver. Relatórios apontam centenas de milhares de contratos irregulares, muitos sem qualquer comprovação de consentimento. A Polícia Federal estima um rombo de bilhões de reais, com indícios de conexões políticas profundas. Esse é o Brasil concreto, longe dos tapetes vermelhos.
Falar de justiça social ignorando que o sistema político defendido mantém esquemas que sangram os mais pobres não é coragem. É oportunismo. Não há virtude em denunciar apenas o inimigo enquanto se protege, com silêncio constrangedor, as vísceras podres dos próprios aliados.
Anthony Hopkins já afirmou, de forma provocativa, que atores são especialistas em fingir — vivem de máscaras. Talvez aí esteja a chave do problema. Quando um ator sobe ao palco para “defender o Brasil”, muitas vezes não está fazendo política no sentido mais nobre do termo, mas entregando uma performance moral para uma plateia que quer se sentir bem ao aplaudir causas distantes, sem custo pessoal algum.
Democracias não precisam de salvadores de grife nem de discursos ensaiados para plateias estrangeiras. Precisam de honestidade intelectual, coerência moral e coragem para denunciar injustiças onde quer que elas estejam — inclusive, e sobretudo, entre os “nossos”. Enquanto parte da elite cultural preferir a performance ao caráter, suas palavras continuarão soando como isso mesmo: um roteiro bem decorado, encenado à distância, enquanto o povo brasileiro paga o preço real da farsa.













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