A droga não pode mais ser analisada apenas como problema policial ou de saúde pública. Ela precisa ser compreendida como aquilo que efetivamente se tornou: uma indústria transnacional, altamente lucrativa, integrada a cadeias logísticas, sistemas financeiros, rotas marítimas, portos, fronteiras terrestres e estruturas empresariais de lavagem de dinheiro.
O Brasil deixou de ser mero território de passagem. Hoje é mercado consumidor, corredor logístico e plataforma de exportação da cocaína produzida principalmente na Colômbia, no Peru e na Bolívia. Segundo estudos baseados em dados internacionais, o comércio de cocaína que passa pelo território brasileiro pode alcançar potencial de faturamento de até R$ 335 bilhões, valor comparável a cerca de 4% de todo PIB nacional. Não se trata mais de “boca de fumo”; trata-se de uma economia paralela.
A produção mundial de cocaína segue concentrada nos países andinos. A Colômbia permanece como principal centro produtor, seguida por Peru e Bolívia. O crescimento das áreas cultivadas e da produtividade mostra que o narcotráfico aprendeu a se adaptar: quando uma rota é pressionada, outra surge; quando um método é combatido, outro é desenvolvido; quando uma fronteira endurece, o crime migra para portos, rios e empresas de fachada.
Por isso, qualquer política séria precisa atacar a origem econômica do problema. A erradicação do plantio ilícito de coca deve voltar ao centro do debate internacional. Substituição voluntária, legalização ou tolerância podem ser apresentadas como soluções humanitárias, mas muitas vezes acabam funcionando como tempo ganho para organizações criminosas que exploram agricultores, corrompem autoridades e financiam grupos armados.
É comum ouvir que a chamada “Guerra às Drogas” fracassou. A afirmação é confortável, mas simplifica demais a realidade. Em países como a Colômbia, políticas apoiadas pelos Estados Unidos produziram resultados relevantes na redução de homicídios, sequestros e capacidade operacional de grupos armados, ainda que não tenham eliminado a oferta de cocaína. O correto é dizer que a estratégia teve resultados parciais, ciclos de avanço e recuo, e que falhou quando não foi acompanhada de presença estatal permanente, inteligência financeira e repressão qualificada.
A violência latino-americana gira, em grande medida, em torno da economia do narcotráfico. Não apenas pelo tráfico em si, mas pelas disputas territoriais, lavagem de dinheiro, compra de armas, corrupção de agentes públicos, domínio de comunidades e infiltração em mercados legais. Onde há narcotráfico forte, há disputa por território, silenciamento de testemunhas, execuções, intimidação e degradação institucional.
O Espírito Santo deve olhar para esse fenômeno com estratégia própria. O Estado não produz cocaína, mas é vulnerável como corredor logístico, mercado consumidor e possível ponto de lavagem. Portos, rodovias, transportadoras, galpões, postos de combustíveis, empresas de fachada, comércio em espécie e imóveis precisam ser tratados como parte da política de segurança pública.
Uma proposta estadual criativa seria a criação de um Programa Capixaba de Inteligência Econômica contra o Narcotráfico, integrando Polícia Civil, Polícia Militar, Receita Estadual, Junta Comercial, Ministério Público, Guardas Municipais e setor portuário. O objetivo seria seguir o dinheiro, mapear empresas suspeitas, cruzar dados fiscais, identificar evolução patrimonial incompatível, monitorar rotas logísticas e criar alertas de risco para atividades econômicas usadas pelo crime organizado.
O enfrentamento moderno ao tráfico não será vencido apenas com apreensão de drogas. Será vencido quando o Estado tornar o crime um mau negócio. Enquanto a droga for tratada apenas como mercadoria ilícita de varejo, o poder público continuará enxugando gelo. Mas quando a droga for enfrentada como indústria econômica, com origem, logística, distribuição, lavagem e reinvestimento, o Estado começará a atingir aquilo que o crime mais protege: seu patrimônio.

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